Palavras: escamas da memória
É interessante como uma palavra desperta toda uma vida adormecida, toda uma memória encrustada nas profundezas de um quase esquecimento. A palavra? TALHADA. Não essa do verbo talhar. Ou seria entalhar? O contato com a literatura portuguesa e, consequentemente, com esse idioma comum, me fez, dentro de alguns segundos, teleportar, de um país europeu presente nas páginas de um livro, para um Brasil da década de 90, quando eu ouvia meus pais e avós me oferecerem uma "taiada" de melancia. E essa, sim... Essa é a palavra "correta": TAIADA. A marca da oralidade sempre recheia com maior carga semântica qualquer palavra. Não tenho certeza se a memória é realmente essa, mas me convém que seja, pois ela não tem nenhuma espécie de azedume traumático.
Mas voltemos à palavra. Talhada tem sim relação com os verbos talhar e entalhar. Mas não me refiro ao particípio do verbo talhar, me refiro ao substantivo "talhada", o mesmo que fatia ou pedaço. A viagem espaço-temporal que um som, mais especificamente uma palavra, pode proporcionar é incrível. E não é somente pela retomada de uma lembrança do uso. É pelo "quem usa", "como usa" e "com que intenção". Em outras palavras, é um vocábulo que carrega emoção, que sacode nosso interior de uma forma tão forte que faz com que abondonemos a leitura de um livro e passemos a escrever sobre esse despertar emocional.
Em que momento abandonei a "taiada"? Quando essa palavra desapareceu do meu repertório linguístico e ficou confinada nas lembranças de décadas atrás? Creio que o amadurecimento, a aquisição de conhecimento e a nossa formação intelectual são em algum grau assassinos. Assassinos de comportamentos e de ideias. Concordo que alguns desses, os que representam concepções não tão adequadas para o convívio ou para a manutenção da saúde mental, devem sim ser aniquilados. No entanto, há tantos outros que deveriam ser resguardados desse triste fim.
É comum e é o curso natural de toda língua apresentar esse processo de "descamação". Cada escama que se desprende se perde e se desvincula da fala, podendo ainda ser encontrada em um registro escrito ou perdida nas lembranças de alguém. E aqui me permito relembrar com carinho a escama que encontrei e pude vislumbrar seu brilho carregado de afeto. Cada escama perdida representa não somente uma palavra e seu referente no mundo, mas uma fala, um uso, e, consequentemente, uma pessoa.
Termino esse devaneio me perguntando: em que momento, para quem e de que forma, eu, que aqui estou relembrando uma escama, estarei espelhado numa escama que será encontrada por alguém no futuro?
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